segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Bhagavad-Gitã e seus conselhos Imortais


" Mesmo que sejas considerado o mais pecaminoso dentre todos os pecadores,
quando tiveres situado no barco do conhecimento, serás capaz de cruzar
o Oceano de misérias"

(
Verso 36; Capitulo 4 - O Conhecimento Transcendental) 


    Há doze anos atrás pela primeira vez em minha vida e partindo de um incentivo próprio me dispus a uma leitura sem fronteiras e pré-conceitos de toda o conteúdo bíblico católico. Desde então nunca religião alguma nesta vida me deteve como um praticante, porém, em verdade creio que eu tenha me tornado uma espécie de admirador passivo de muitas destas que se espalham por ai, sou quem sabe um Panteísta não praticante. A Bíblia é um livro enorme do ponto de vista que avalia a quantidade de paginas que reunidas a define como é, mas muito maior se torna ao espirito aventureiro que por ela a ousadia um dia se rompa por caminhar. Seu conteúdo é imensurável, e seja lá quem quer que for que se disponha a ridicularização de sua ética antiquada devida a época em que se passaram muitas de suas historias e mitos, tal pessoa perde-se utilizando seu tempo num sentido com tão pouco significado.  Não creio em deus nem em deuses, mas daria muito do que estivesse ao meu alcance para de alguma outra perspectiva poder um dia enxergar este mundo menos gelado. As religiões são mitológicas porque do contrario não seriam grandes o suficientes para abarcarem os mais distintos seguidores. Não tão somente por isto, o assunto se definha no interminável, e o que realmente me importa aqui dizer, é que longe de querer engrandecer a fé e seus signos, diga-se o que quiser, mas tudo em seu modo de ser porta de alguma maneira uma grandeza brilhante. E isso eu mesmo vi, outro dia, enquanto esperava por alguma coisa acontecer observando a disciplina de formigas que sem nem um pouco se incomodarem com a minha presença, transitavam por um caminho cheio de folhas que só elas sabiam entender. O caso é que muitas das coisas que se têm cunhadas nos fundos de inúmeras doutrinas religiosas, realmente só podem servir aos seus seguidores. Do outro lado no entanto, o que se pode descobrir de um autentico valor de praticas ou pequenas coisas que poderíamos aderir, cada qual a sua maneira, em nossa vida tumultuada, afirma a quem quiser provar que as formigas e tudo mais são sem duvidas transformadoras. 

    O Bhagavad-Gitã ou Gitã tão somente, é um destes livros que jamais ficaram apenas no papel depois de serem lidos com atenção e uma reflexão sincera na pratica. Composto de uma serie de conselhos de Krishna á Arjuna, personagens popularíssimos na historia do mito hindu, seus versos e pequenas colocações muitas das vezes serão capazes de nos deslocar para muito além de nossas vidas tecno-portáteis. Como parte de um livro ainda maior, O Mahabharata, épico magno da literatura indiana que narra das formas mais excêntricas e imaginativas a criação dos cosmos e de tudo. Por ele até hoje passei exclusivamente uma unica vez, devida a extensão do texto com muito mais de 10000 paginas comparadas as quase 1000 da Bíblia, além de que raramente se encontra em língua portuguesa impresso, sendo sua leitura somente possível para quem assim desejar fazer, através de PDFs por meio de sites e downloads. O caso é que o Gitã compõe esta enorme epopeia egoica. 

    Em seus conselhos Krishna revela passo a passo á Arjuna toda fantasmagoria que envolve os seres humanos em suas vidas na ilusão de uma plenitude material. Plenitude esta muito possível, desde que nos entreguemos a um instinto banal de uma superfluidade ignota que se completa a cada dia com uma miséria que ocupa cada cômodo de nossas vidas. Um manual de uma simplicidade limpa, numa vasta parte de suas passagens, um verdadeiro esteio a uma vida de mais Seres do que Teres. 

   
" É muito melhor cumprir os próprios deveres, embora com defeito, do que executar
com perfeição os deveres alheios . A destruição durante o cumprimento do próprio
dever é melhor do que ocupar-se nos deveres alheios, pois seguir o caminho dos
outros é perigoso
".  

(Verso 35; Capitulo 3 - Karma Yoga)


    Aqui poderia passar horas reescrevendo suas inúmeras citações, mas cabe a cada um procurar os seus próprios modos de ver a existência e suas situações. No primeiro capitulo do Mahabharata, O Adi Parva, retirei algumas das passagens que achei mais célebres:

       "Existência e Não-Existência, prazer e dor, todos têm o Tempo como sua base. O Tempo cria todas as coisas e o Tempo destrói todas as criaturas. É o Tempo que queima as criaturas e é o Tempo que extingue o fogo. Todos os estados, o bem e o mal, nos três mundos são causados pelo Tempo. O Tempo ceifa todas as coisas e as cria novamente. Somente o Tempo está desperto quando todas as coisas estão adormecidas; de fato, o Tempo é incapaz de ser superado. O Tempo atravessa todas as coisas sem ser retardado. Sabendo, como tu sabes, que todas as coisas passadas e futuras e tudo o que existe no momento presente são o resultado do Tempo, não cabe a ti perder tua razão".

    
    Esta passagem se assemelha ao mesmo conselho dado pelo Eclesiastes, no antigo testamento, livro atribuído ao gênio do rei Salomão:


    "Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz. Que proveito tira o trabalhador de sua obra? Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens, todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro. Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida".

                (Eclesiastes Capitulo 3; Versículo 1-15)



    Outras com as quais me deparei:


- " Em verdade a maior virtude de um homem é respeitar a vida dos outros". -


- " O destino sempre inflige punição de morte áqueles que procuram a morte de outras criaturas". -


- " A ruína absoluta logo traga os separados". -


     - " O ano é apenas o cubo de uma roda à qual estão ligados setecentos e vinte
raios representando os dias e as noites. A circunferência desta roda representada pelos doze meses é sem fim. Esta roda é cheia de ilusões e não conhece deterioração. Ela afeta todas as criaturas sejam deste ou dos outros mundos". -



    Fica ai mais uma boa leitura para se fazer pelas horas destas nossas vidas, um livro cheio de sentidos, mas no entanto muito singelo de uma virgula a outra. Não creio inclusive que a descrença de alguém nos mitos de criação e seus símbolos, principalmente os ateus, sendo assim que me chamam igualmente a muitos, mesmo achando eu que o panteísmo é muito mais delicioso, nos impeça de apreender algo a que a observação sadia sempre tem a quem quiser apreender ensinar. Muitas são e serão as vezes em que a soberba de uma opinião e certeza, farão por estragarem a saliência de uma obra inteira. Ser ateu não passa de ser qualquer outra coisa nem maior nem melhor do que quer que sejam as nossas virtudes. É nos outros e em suas maneiras que encontramos algum sentido para os nossos próprios significados. Sejam desprezíveis ou miseráveis, ninguém se ampara num primeiro passo na sua forma tão inútil e vazia. O inferno são os outros, como nos avisa Sartre, porque é por eles que a nós nos revelamos a nós mesmos.      



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