quinta-feira, 17 de abril de 2014

Simplicidade Pensada, O Discurso Inglório da Lamentação

    Algumas coisas que se a maioria das pessoas neste mundo tomassem como principio, nossas vidas quem sabe teriam um não maior, mas melhor significado:


    Não reclamar. Absolutamente isto. É sabido por cada um de nós que o dia a dia sem o grande consolo de um desabafo muitas vezes se torna insuportável. Não há mal nenhum nisto. No entanto o verdadeiro risco que corremos, se esconde por detrás dos mais singelos hábitos de nossas vidas. A reclamação acerca das coisas que nos são tão comuns e diárias acaba por nos revelar em um determinado instante de nossas existências, a nossa capacidade sem limites de enxergar por escolha própria qualquer coisa de uma perspectiva pior do que ela já talvez seja. Nos tornamos singulares não aonde devíamos em verdade sermos, mas exatamente aonde nada mais precisa ser piorado é que nos esforçamos por tornar tudo aquilo ainda mais miserável e macerante.  Reclamos do Tempo em sua passagem, quando na realidade jamais nos damos conta da brilhante oportunidade que talvez tenhamos ganho de estarmos vivendo hoje para presencia-lo. A vida não é fácil, porque morremos muito depressa. Antes mesmo de daqui deste mundo partirmos, creio que muitos dos nossos os corpos já abandonaram há muitos e muitos anos. Vivemos mesquinhamente em cidades e grandes capitais. Sendo sem pausa o tempo inteiro bombardeados por incentivos que jamais nos alçarão á uma existência segura, nos rendemos sem grandes protestos as propagandas que querem nos provar a todo custo que se for por aquilo que eles mostram as nossas vidas podem  mesmo serem muito melhores. Assim a cultura que nos doutrina fermenta seguramente a cada nova manhã de nossos afazeres um colapso particular em cada um de nossos destinos. O mundo não é dos melhores, e a especie humana uma difícil tarefa diária. Mas cada um nessa terra possivelmente haverá ao seu modo de querer fazer desta vida um bocado melhor. E o melhor mesmo da vida, reside na capacidade individual de criar cada homem e mulher ao seu jeito uma ilusão própria que lhe assegure no minimo que possa ser, algumas horas de tranquilidade pelas ruas de suas próprias vidas.

    Diariamente me deparo com pessoas, e diariamente a Lamentação acerca de tudo invade as passarelas das bocas até as línguas. Muitas vezes mesmo percebo em uma grande maioria da gente que há por ai, o habito estéril de maldizer sobre qualquer coisa meia duzias de palavras apenas pela simples necessidade de querer cada um com o seu próximo ter alguma coisa para se falar. A estupidez sempre nos sobressai quando a ignorância não encontra saída. Falando menos, quem dera soubéssemos realmente disto, ganhamos muito mais aliviando o peso de nossos fados pela ausência de palavras que só nos servem para recordar o que no fundo há de pior verdadeiramente em cada dia visto. A Economia em todos o seus sentidos deveríamos das mais diversas formas aplicarmos sobre todos os nossos significados. Reclamamos da chuva porque ela nos molha, nos impede, porque temos pressa; reclamamos do sol pelo calor; do vento pelas coisas movimentarem; reclamamos uns dos outros porque esquecemos quem sabe o conselho do velho Cristo, se cada um retirasse antes de mais nada a trave de seu próprio olho, quem sabe não veríamos melhor aquilo que em qualquer um antes nos incomodava; reclama-se do mês, por ser o mês que se é e não outro; do ano; do barulho; do silêncio; reclamamos se estamos sozinho, e se alguém nos aparece para de nossa vida com um outro podermos compartilharmos, reclamos que não nos sobra espaço, que o tempo é curto e o dinheiro falta sempre que necessário.

    Conheci muitos, a começar comigo mesmo, que sempre que a oportunidade lhes surgiram fizeram uma reclamação acerca de algo que jamais neste universo deve ter demovido alguém á uma singela solução. O Lamento nunca traz uma saída, porque em nossos vícios de conduta não nos damos a perceber que em verdade nada talvez precise de uma solução. Na maior parte das vezes nossas atitudes de delapidação para com a vida, não passam mesmo de um mero egoismo que emerge dos nossos lapsos de consciência. Um mero oportunismo em que chegamos todas as vezes que nos falta algo de melhor para fazer e autêntico o suficiente para se falar. Falta-nos uma especie de Indiferença sadia, a qual jamais em sua rota culminaria numa irresponsabilidade sem fim para com tudo. Deixar acontecer com a ciência de quem jamais perde o movimento. Creio que se qualquer um em verdade mesmo quiser ter uma noção real do verdadeiro estado em que atualmente encontra-se a sua vida, basta que atentamente tal observador escute quantas vezes em um dia ele é capaz de praguejar contra o Mundo e sua Natureza. Nunca estamos aonde estamos para podermos capturar num instante próximo a grandeza sem par que o Tempo nos sugere. A satisfação para muitos é uma questão para a vida toda, e a vida toda nunca passa de ser uma perspectiva. Um modo de olhar para as coisas.


    "Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo aos seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si só ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor num sentido mais liberal, e ele vivera com a licença de uma ordem superior de seres."


                                                                                                         ( H. D. Thoreau ) 


    Em verdade penso que a vida na Modernidade não seja a responsável por esta mania humana de sempre maldizer o presente em que esteja vivendo. Quiça nos seja isto mais remoto do que a palavra falada, mas duvido que em algum momento o ato do escárnio por qualquer coisa tenha-se revelado essencial para alguma hora destas nossas passagens pelo mundo. No entanto a super acumulação de afazeres que nos corrompe nos tempos de agora, contribui significativamente para um mundo de pessoas mais exaltadas, rabugentas, mundanas em todos os seus juízos. Cristo uma vez me disse que não me perdesse em preocupações com as coisas e a quanto andam, Cristo não conheceu o Carro, porém quantos de nós em verdade morrerão sem entender no minimo que se importe a diferença que nos traz o Bom Senso para nossos caminhos. Muitos procuram em meio as horas aquelas que se singularizam por trazerem a Paz. Vale-se dizer que a Paz não é um produto da guerra e nem das facetas humanas quando se empenham na construção de suas dicotomias. Esta é minha opinião, na vida humana tudo em sua grande parte que nos sugere mudança, não vem a tona sem antes primeiro ter-se passado por um rigoroso exercício de Pratica e Credo. A força com que alguns de nós pensamos a respeito de algo, em algum lugar do Tempo sempre mostra-se por ser reveladora. De modo que se te empenhas na procura de uma paz qualquer em momentos próprios, insisto em esclarecer que não há de ser Reclamando que haverá de descobrir o teu próprio paraíso ainda nesta vida. O que inclusive sempre me põe a Pensar em dias de chuva na Cidade das Nuvens, pois no Antigo Testamento, Deus toma do Homem o Éden, um lugar aonde ninguém podia ter nada para reclamar, assim estabelece a vida contra o tempo, pelo trabalho e pelos declínios da existência a raça humana haverá de peregrinar na busca do Paraíso Perdido. No entanto cremos que o melhor de tudo na vida sempre esta relacionado ao que vem de fora para dentro, a Busca nunca começa por onde mais cedo ou mais tarde tudo um dia haverá de se terminar: em nós mesmos.

    Todos. Absolutamente cada um. Somos todos Ulisses, reis e rainhas de uma pequena ilha da qual nos perdemos após o longo decurso de uma guerra interminável. Haveremos de procurar pelos dias afora até os últimos anos uma saída para o Destino. Poucos em verdade chegarão a Ítaca, muitos submergirão pelas águas de Netuno; outros jamais passarão por Polifeno, e uma vasta maioria dos nossos em verdade não resistirão aos laços de Calipso. Como os animais de Circe nos entregamos facilmente á Taça da Lamentação.  Então o tempo chega-nos aos ouvidos, e fala de uma antiga Penélope quem em sua esperança distante, pela vida inteira se dispôs a aguardar pelo momento real do nosso verdadeiro amadurecimento. Muitos são Ulisses, mas poucos Reis ou Rainhas de Ítaca. 


    Quem tem ouvidos para ouvir, que Ouça.

                  

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Bhagavad-Gitã e seus conselhos Imortais


" Mesmo que sejas considerado o mais pecaminoso dentre todos os pecadores,
quando tiveres situado no barco do conhecimento, serás capaz de cruzar
o Oceano de misérias"

(
Verso 36; Capitulo 4 - O Conhecimento Transcendental) 


    Há doze anos atrás pela primeira vez em minha vida e partindo de um incentivo próprio me dispus a uma leitura sem fronteiras e pré-conceitos de toda o conteúdo bíblico católico. Desde então nunca religião alguma nesta vida me deteve como um praticante, porém, em verdade creio que eu tenha me tornado uma espécie de admirador passivo de muitas destas que se espalham por ai, sou quem sabe um Panteísta não praticante. A Bíblia é um livro enorme do ponto de vista que avalia a quantidade de paginas que reunidas a define como é, mas muito maior se torna ao espirito aventureiro que por ela a ousadia um dia se rompa por caminhar. Seu conteúdo é imensurável, e seja lá quem quer que for que se disponha a ridicularização de sua ética antiquada devida a época em que se passaram muitas de suas historias e mitos, tal pessoa perde-se utilizando seu tempo num sentido com tão pouco significado.  Não creio em deus nem em deuses, mas daria muito do que estivesse ao meu alcance para de alguma outra perspectiva poder um dia enxergar este mundo menos gelado. As religiões são mitológicas porque do contrario não seriam grandes o suficientes para abarcarem os mais distintos seguidores. Não tão somente por isto, o assunto se definha no interminável, e o que realmente me importa aqui dizer, é que longe de querer engrandecer a fé e seus signos, diga-se o que quiser, mas tudo em seu modo de ser porta de alguma maneira uma grandeza brilhante. E isso eu mesmo vi, outro dia, enquanto esperava por alguma coisa acontecer observando a disciplina de formigas que sem nem um pouco se incomodarem com a minha presença, transitavam por um caminho cheio de folhas que só elas sabiam entender. O caso é que muitas das coisas que se têm cunhadas nos fundos de inúmeras doutrinas religiosas, realmente só podem servir aos seus seguidores. Do outro lado no entanto, o que se pode descobrir de um autentico valor de praticas ou pequenas coisas que poderíamos aderir, cada qual a sua maneira, em nossa vida tumultuada, afirma a quem quiser provar que as formigas e tudo mais são sem duvidas transformadoras. 

    O Bhagavad-Gitã ou Gitã tão somente, é um destes livros que jamais ficaram apenas no papel depois de serem lidos com atenção e uma reflexão sincera na pratica. Composto de uma serie de conselhos de Krishna á Arjuna, personagens popularíssimos na historia do mito hindu, seus versos e pequenas colocações muitas das vezes serão capazes de nos deslocar para muito além de nossas vidas tecno-portáteis. Como parte de um livro ainda maior, O Mahabharata, épico magno da literatura indiana que narra das formas mais excêntricas e imaginativas a criação dos cosmos e de tudo. Por ele até hoje passei exclusivamente uma unica vez, devida a extensão do texto com muito mais de 10000 paginas comparadas as quase 1000 da Bíblia, além de que raramente se encontra em língua portuguesa impresso, sendo sua leitura somente possível para quem assim desejar fazer, através de PDFs por meio de sites e downloads. O caso é que o Gitã compõe esta enorme epopeia egoica. 

    Em seus conselhos Krishna revela passo a passo á Arjuna toda fantasmagoria que envolve os seres humanos em suas vidas na ilusão de uma plenitude material. Plenitude esta muito possível, desde que nos entreguemos a um instinto banal de uma superfluidade ignota que se completa a cada dia com uma miséria que ocupa cada cômodo de nossas vidas. Um manual de uma simplicidade limpa, numa vasta parte de suas passagens, um verdadeiro esteio a uma vida de mais Seres do que Teres. 

   
" É muito melhor cumprir os próprios deveres, embora com defeito, do que executar
com perfeição os deveres alheios . A destruição durante o cumprimento do próprio
dever é melhor do que ocupar-se nos deveres alheios, pois seguir o caminho dos
outros é perigoso
".  

(Verso 35; Capitulo 3 - Karma Yoga)


    Aqui poderia passar horas reescrevendo suas inúmeras citações, mas cabe a cada um procurar os seus próprios modos de ver a existência e suas situações. No primeiro capitulo do Mahabharata, O Adi Parva, retirei algumas das passagens que achei mais célebres:

       "Existência e Não-Existência, prazer e dor, todos têm o Tempo como sua base. O Tempo cria todas as coisas e o Tempo destrói todas as criaturas. É o Tempo que queima as criaturas e é o Tempo que extingue o fogo. Todos os estados, o bem e o mal, nos três mundos são causados pelo Tempo. O Tempo ceifa todas as coisas e as cria novamente. Somente o Tempo está desperto quando todas as coisas estão adormecidas; de fato, o Tempo é incapaz de ser superado. O Tempo atravessa todas as coisas sem ser retardado. Sabendo, como tu sabes, que todas as coisas passadas e futuras e tudo o que existe no momento presente são o resultado do Tempo, não cabe a ti perder tua razão".

    
    Esta passagem se assemelha ao mesmo conselho dado pelo Eclesiastes, no antigo testamento, livro atribuído ao gênio do rei Salomão:


    "Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz. Que proveito tira o trabalhador de sua obra? Eu vi o trabalho que Deus impôs aos homens, todas as coisas que Deus fez são boas, a seu tempo. Ele pôs, além disso, no seu coração a duração inteira, sem que ninguém possa compreender a obra divina de um extremo a outro. Assim eu concluí que nada é melhor para o homem do que alegrar-se e procurar o bem-estar durante sua vida".

                (Eclesiastes Capitulo 3; Versículo 1-15)



    Outras com as quais me deparei:


- " Em verdade a maior virtude de um homem é respeitar a vida dos outros". -


- " O destino sempre inflige punição de morte áqueles que procuram a morte de outras criaturas". -


- " A ruína absoluta logo traga os separados". -


     - " O ano é apenas o cubo de uma roda à qual estão ligados setecentos e vinte
raios representando os dias e as noites. A circunferência desta roda representada pelos doze meses é sem fim. Esta roda é cheia de ilusões e não conhece deterioração. Ela afeta todas as criaturas sejam deste ou dos outros mundos". -



    Fica ai mais uma boa leitura para se fazer pelas horas destas nossas vidas, um livro cheio de sentidos, mas no entanto muito singelo de uma virgula a outra. Não creio inclusive que a descrença de alguém nos mitos de criação e seus símbolos, principalmente os ateus, sendo assim que me chamam igualmente a muitos, mesmo achando eu que o panteísmo é muito mais delicioso, nos impeça de apreender algo a que a observação sadia sempre tem a quem quiser apreender ensinar. Muitas são e serão as vezes em que a soberba de uma opinião e certeza, farão por estragarem a saliência de uma obra inteira. Ser ateu não passa de ser qualquer outra coisa nem maior nem melhor do que quer que sejam as nossas virtudes. É nos outros e em suas maneiras que encontramos algum sentido para os nossos próprios significados. Sejam desprezíveis ou miseráveis, ninguém se ampara num primeiro passo na sua forma tão inútil e vazia. O inferno são os outros, como nos avisa Sartre, porque é por eles que a nós nos revelamos a nós mesmos.      



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Junito de Souza Brandão, A Visão de um Brasileiro sobre a Mitologia

    Recentemente me deparei com a obra deste acadêmico brasileiro, Junito Brandão, acerca do universo mitológico da Grécia extinta.Tenho de confessar que meu entusiasmo normalmente é inértico no que diz respeito a grande parte dos pensadores semeados no Brasil. No entanto em sua obra que venho lendo com profunda admiração, encontrei em verdade um brasileiro impar, honestamente de gênio. Não tenho tanto a escrever sobre ele, já que as fontes permanecem escassas acerca da historia de sua vida. Embora pouco conhecido pelo pais, indico que indubitavelmente aos que se encontram como eu ligados a mitologia grega pelo amor e a admiração, encontrão no professor e sua obra uma intensa analise da historia do mito e seus significados.






Junito de Souza Brandão.





    A sua saga escrita sobre a mitologia grega, a qual eu atualmente tenho gasto boas horas em sua leitura. Menos conhecida do que a obra de Thomas Bulfinch e sua Introdução a Mitologia, Junito Brandão nada deixa a desejar sobre o tema, fazendo profundas analises filológicas e psicológicas no entorno de cada mito.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Emil M. Cioran

 Nascido na Romênia e morto na França, Cioran dentre tantos outros aos quais ja me deparei se destaca pela sua postura em relação a toda e qualquer ideia de bem-ventura e progresso. Em muitos de seus aforismos chega a despertar um Pessimismo revolucionário, sendo ao velho Cioran a vida a grande vitima dela própria. Sua fé inabalável em nada, a vida solitária pelas ruas as quais segundo ele mesmo em um antigo documentário revela, que por noites e noites perambulava pelas ruas de Paris, na companhia de seus dizeres, tendo em vista a cada calçada que chegava apenas as putas e os indigestos daquela grande cidade luminosa. Um pensador pouco lido pela gente do mundo, por conta certamente de sua capacidade gélida de tudo traduzir a nada.

Um de seus aforismos, retirado de sua obra mor: Breviário de Decomposição.

  

A Arrogância da Oração


    Quando se chega ao limite do monólogo, aos confins da solidão, inventa-se — na falta de outro interlocutor — Deus, pretexto supremo de diálogo. Enquanto o nomeias, tua demência está bem disfarçada e… tudo te é permitido. O verdadeiro crente mal se distingue do louco; mas sua loucura é legal, admitida; acabaria em um asilo se suas aberrações estivessem livres de toda fé. Mas Deus as cobre, as torna legítimas. O orgulho de um conquistador empalidece comparado à ostentação do devoto que dirige-se ao Criador. Como se pode ser tão atrevido? E como poderia ser a modéstia uma virtude dos templos, quando uma velha decrépita, que imagina o Infinito a seu alcance, eleva-se pela oração a um nível de audácia ao qual nenhum tirano jamais aspirou?
    Sacrificaria o império do mundo por um só momento em que minhas mãos juntas implorassem ao grande Responsável de nossos enigmas e de nossas banalidades. Entretanto, esse momento constitui a qualidade corrente — e como que o tempo oficial — de qualquer crente. Mas quem é verdadeiramente modesto repete a si mesmo: “Demasiado humilde para rezar, demasiado inerte para transpor o limiar de uma igreja, resigno-me à minha sombra e não quero uma capitulação de Deus ante minhas orações”. E aos que lhe propõem a imortalidade, responde: “Meu orgulho não é inesgotável: seus recursos são limitados. Pensam, em nome da fé, vencer seu eu; na realidade, desejam perpetuá-lo na eternidade, pois não lhes basta esta duração presente. Sua soberba excede em refinamento todas as ambições do século. Que sonho de glória, comparado ao seu, não se revela engano e vã ilusão? Sua fé é apenas um delírio de grandeza tolerado pela comunidade, porque utiliza caminhos camuflados; mas seu pó é sua única obsessão: gulosos do intemporal, perseguem o tempo que o dispersa. Só o além é bastante espaçoso para suas cobiças; a terra e seus instantes parecem demasiado frágeis. A megalomania dos conventos supera tudo o que jamais imaginaram as febres suntuosas dos palácios. Quem não admite sua nulidade é um doente mental. E o crente, entre todos, é o menos disposto a consentir. A vontade de durar, levada até tal ponto, apavora-me. Recuso-me à sedução malsã de um Eu indefinido. Quero chafurdar-me em minha mortalidade. Quero permanecer normal.”
    (Senhor, dá-me a faculdade de jamais rezar, poupa-me a insanidade de toda adoração, afasta de mim essa tentação de amor que me entregaria para sempre a Ti. Que o vazio se estenda entre meu coração e o céu! Não desejo ver meus desertos povoados com Tua presença, minhas noites tiranizadas por Tua luz, minhas Sibérias fundidas sob Teu sol. Mais solitário do que Tu, quero minhas mãos puras, ao contrário das Tuas que sujaram-se para sempre ao modelar a terra e ao misturar-se nos assuntos do mundo. Só peço à Tua estúpida onipotência respeito para minha solidão e meus tormentos. Não tenho nada a fazer com Tuas palavras. Concede-me o milagre recolhido antes do primeiro instante, a paz que Tu não pudeste tolerar e que Te incitou a abrir uma brecha no nada para inaugurar esta feira dos tempos, e para condenar-me assim ao universo, à humilhação e à vergonha de existir.)
  • tradução: José Thomaz Brum














     Aconselharia a qualquer um nesta vida ao menos uma vez que fosse possível, que este realizasse a leitura de um texto de Cioran. Pois como se sabe muitas das vezes em nossos corriqueiros destinos, o que realmente nos falta não é alguém que nos diga que tudo vai dar certo e que esta ou aquela situação, se tornarão melhores se pensarmos positivo. Uma dose mensal de um pessimismo cúmico, as vezes é unica coisa de que realmente precisamos para hastear a bandeira de uma fase maior em nossas vidas. Os seus escritos não são dos mais fáceis de se sentar e entender numa primeira passagem, e muitos mesmo antes de um segundo paragrafo já desistirão, no entanto vale o esforço de ao menos dar o primeiro pontapé. 



                        "Só tem convicções aquele que não se aprofundou em nada"   

                                                 ( Emil M. Cioran / 1911-1995 )

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Henry D. Thoreau

   


    Á minha perspectiva,  um dos homens o qual a capacidade de viver bem uma vida de longe mais me causa inveja. Simplesmente isto. Thoreau se dispôs numa experiência transcendental a uma vida por dois anos, dois meses e uns dias pelas margens do lago Walden, em Concord cidade no estado de Massachusetts. Construindo por ali num terreno que lhe emprestado havia sido pelo seu não menos admirável amigo Ralph Waldo Emerson, uma minimalista casa, com apenas um cômodo, uma lareira, uma cama, algumas cadeiras e uma pequena mesa. Sua existência por aquele tempo nas margens do belíssimo lago Walden, se transcorreu como descreve o próprio Thoreau, de maneira tranquila e serena. Presenciava a cada dia seu inicio e fielmente com uma rara devoção ao momento presente, também era testemunha do fim de cada hora que partia. Devoto ilustre da natureza e todos o seus movimentos, propagou por sua imagem em épocas vindouras a grandeza singela de uma vida mais próxima daquilo que um dia fomos e sempre seremos: Animais comuns. Os ondas hippies das décadas de 60 e 70 que se propagaram pelo mundo, principalmente pela América do Norte,  tinham entre seus grandes inspiradores a figura emblemática do rebelde de Concord. Em livros e textos como suas obras máximas: Walden, Desobediência Civil e Andar a Pé, centenas de seres humanos se encontraram daquilo que a época em que viveram lhes dizia ser impossível: Uma vida sem grandes artifícios. Gandhi ao ler a Desobediência Civil encontrou a forja para sua espada que veio junto aos tantos credos Hindus daquilo que haveria de ser popularizado pelo nome de Ahimsa, principio ético que rejeita a violência descabida como proposito de resolução. Tolstoi também havia encontrado nas coisas que o rustico ermitão um dia escreveu uma forma diversa de pensar o mundo.



    Walden, ou A Vida nos Bosques, um livro que narra a biografia de dois anos de uma homem que como poucos percebeu o Tempo em sua passagem arcana, tem sido no decorrer dos últimos anos da minha vida um baluarte sem par para toda a minha incapacidade de ser melhor sendo menor a cada instante. Perco constantemente como muitos outros dessa terra o fio de Ariadne que me levaria a um modo de vida menos compulsivo e contaminado pela constância abusiva da mania de grandeza em meio a sociedade moderna. Encarcerados por esse monstro, a economia estabelece seu funcionamento pela voraz via do incetivo a todo custo de obter aquilo que se é criado. Nos tornamos fúteis no convívio sem destino com a quimera de tantas vazias publicidades. O governo depende totalmente que sua população faça parte de toda propagação dos impulsos de comprar inutilmente coisas que em verdade não passam de serem filhas de uma época sem sentido. Não que outras épocas e idades da historia tenham tido mais clamor do que esta, a questão não é esta. A questão talvez não seja nenhuma. A questão talvez seja exatamente esta: darmos a nós mesmos a oportunidade de uma criação própria no que diz respeito a qualquer construção no intuito da questão. A Economia, esta ninfa moderna, verdadeiramente é uma deusa, tal qual Hera, porém maior, não depende de nenhum Zeus no que sirva a saber por onde vão seus passos. O governo é um meio, um servo, no fim nos tornamos lacaios endurecidos pelas próprias maneiras que criamos dia-a-dia para nesse mundo melhor caminhar. Thoreau como Buda, Jesus Cristo, Diógenes de Sínope, Gandhi, Spinoza, J.J. Rosseau, entre tantos outros dos mais antigos tempos aos mais modernos como é o caso do admirável Mujica, presidente do Uruguai, prova-nos que a cultura que se dissemina pela imagem das peripécias do materialismo mundano, é vã e cega. Em uma dentre as inúmeras passagens cósmicas de A Vida nos Bosques, Thoreau nos leva a refletir:

" ...No entanto vivemos mesquinhamente, como formigas, embora conte a fábula
que fomos transformados em homens muito tempo atrás; como pigmeus lutamos 
com grous;
                         é erro sobre erro, remendo sobre remendo; e nossa melhor virtude
tem como causa uma miséria supérflua e desnecessária. Nossa vida se perde no
detalhe. Um homem honesto dificilmente precisaria contar além dos dez dedos
da mão, ou, em casos extremos, ele pode acrescentar os dedos dos pés, e juntar
todo o resto numa coisa só. Simplicidade, simplicidade, simplicidade! E digo:
tenham dois ou três afazeres, e não cem ou mil; em vez de uma milhão, contem meia
duzia, e tenham contas tão diminutas que possam ser registradas na ponta do polegar.
Em meio ao oceano encapelado da vida civilizada, são tantas as nuvens, as tormentas,
as areias movediças, os mil e um pontos a levar em consideração, que um homem, se
não quiser naufragar e ir ao fundo sem jamais atingir seu porto, tem de navegar
por calculo e, para consegui-lo, precisa realmente ser bom de calculo. Simplifiquem,
 simplifiquem. Em vez de três refeições por dia, se necessário façam apenas uma; em
vez de cem pratos, cinco; e reduzam as demais coisas na mesma proporção.
Por que teríamos que viver com tanta pressa e desperdício de Vida? "

  
A casa aonde Thoreau viveu, construída pelas suas próprias mãos e com a ajuda de amigos.



O interior do local, ilustrado com moveis que foram colocados nas mesmas posições que os originais.




Um desenho sugestivo de seus dias ali.



A estatua do pensador para sempre eternizado em frente a sua morada.



    Atrás no canto inferior esquerdo da foto, o local aonde era armazenada as lenhas para as estações mais frias. Ali descreve em Walden, que muitas vezes passava realmente horas a fio a assistir as formigas duelarem umas com as outras por sobre as madeiras. Quando não raro, pássaros e marmotas, além de esquilos vinham por ali o visitar.  



No inverno.



O túmulo de Thoreau com seus respectivos familiares.



O lago Walden, titulo de sua obra sem tamanho.



    A Mobelha, esta ave é sitada muitas vezes pelo poeta no decorrer de A Vida nos Bosques. Alimentava verdadeiro fascínio por este pássaro, sendo que por algumas vezes conta-nos que ficava a vagar pelo meio do lago, a espera de uma aproximação maior com uma ou duas Mobelhas que por ali pescavam. Descreve também em seu livro uma das características mais distinguíveis das Mobelhas, que são os seus chamados e "gemidos", quando se comunicam emitem um som que por vezes parece uma gargalhada, levando muitas pessoas a se assustarem com seus risos noturnos pelos arredores de uma mata. Curiosamente esta ave esta estampada nas moedas do dólar canadense.   







     
   

terça-feira, 8 de abril de 2014

Serra de São Domingos, Poços de Caldas e o Observatório Esquecido



    Uma outra imagem das montanhas de Poços de Caldas. Serra de São Domingos, parte correspondente a Rampa II.



    O nosso observatório municipal Áries, entregue ao nada, abandonado a décadas. 

    Eis aqui um pequeno dado histórico acerca deste observatório, retirado do site  http://www.astrobyte.com.br/renanprojetos.html:

      Histórico do Observatório de Poços de Caldas
    "Tempos atrás, alguns estudiosos da astronomia em Poços de Caldas, sonharam em construir um observatório astronômico na cidade e ecolheram para tanto a Serra de São Domingos situado a 1186 metros da cidade de Poços de Caldas. Fundaram até uma associação, mantiveram-se unidos e confiantes no mesmo propósito de construir o observatório, que mais tarde batizaram como Observatório Aquarius. A associação Astronômica de Poços de Caldas nasceu em 1959, pela iniciativa de Augustus Danza e Ulisses Vilela. Era dirigido pelo presidente Marco A. Gobato, Augustus Danza, Osmar Ferrom e Pedro Orlando da Silva, a qual era uma entidade pública onde se reuniam todos os sábados. Para fazer parte dela bastaria obter conhecimentos mínimos de astronomia, muita vontade de aprender, espírito de pesquisa e ser apresentado aos dois sócios. Ela recebeu da prefeitura Municipal, 250 mil cruzeiros no ano 1978, através da qual iniciou a construção do Observatório. Outros pequenos recursos foram aplicados em compra de material para o Observatório e manutenção de ulicliografia, fotos, revistas e intercâmbios com outras unidades do setor.
    O Observatório possui 130 metros quadrados de àrea construída sendo dividida em quatro seções, uma sala circular onde será instalado o telescópio, local para exposições a cúpula, uma sala para revelações fotográficas, outra para construção e manutenção do telescópio e um pequeno auditório para palestras e conferências.
    Ali seriam instalados aparelhos sofisticados, pertencentes ao grupo, que serviriam para perfeito serviço de meteorologia, além de um telescópio considerado como segundo mais potente do interior Brasileiro. O Professor Augustus Danza seria contratado pelo município para permanecer no Observatório várias horas da noite, dando aulas aos nossos estudantes, ao mesmo tempo em que seria este este mais um ponto turístico".

    Mais recentemente entre 2012 e 2013 foi noticiado pela cidade de que a Unifal estaria recebendo oficialmente pela prefeitura a "guarda" do observatório Áries, no entanto ao que parece, os investimentos no que tange a reforma do local e a apropriação de equipamentos mais contemporâneos ao ponto, seguem estáticos, tal qual o sol em relação ao nosso planeta. Poços de Caldas situa-se num privilegiado plano geográfico, sua cadeia de montanhas e pequenas serras são para qualquer observador da abóbada celeste, a verdadeira Ambrosia do antigo Panteão. Mesmo de nossas casas, em face a grande quantidade de luzes que a cidade emite aos céus, tamanha poluição luminosa não é aos moradores daqui um impedimento sério para que estes, como eu, de qualquer canto que estejam vislumbrem algumas dezenas de constelações majestosas pelas nossas noites, principalmente as de inverno.  


    A constelação do Escorpião, vista facilmente de Poços a partir do mês de março. A estrela em destaque é Antares, como pode ser lido. Uma gigante vermelha, a décima sexta estrela mais radiante vista do nosso planeta. Estipulasse que sua massa total seja 800 vezes superior ao do nosso astro principal. O que indica que se ao invés do Sol, tivéssemos a supergigante como vizinha, provavelmente eu não estaria escrevendo isto que se segue. 


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Simplicidade Pensada


    Não precisamos entendermos tudo isso. Ninguém nesta vida necessita de saber mais de alguma coisa do que de si mesmo. Quem nos diz isto não é nenhum oráculo de Olímpia ou de Delfos. Eis ai uma outra coisa de nossas facetas, um homem ou uma mulher, um ser, antes de se deixar guiar deve servir de bom guia pelo menos em duas ou três coisas que tanjam a sua própria experiência e juízo. Por mais admirável que me seja Dante ter aceito de bom esteio os caminhos que lhe apontaram Virgílio pelas veredas da grande comédia, não sei dizer se também eu toparia a empreitada tendo tanta certeza como um guia. O que nos garante que o caminho pelos três templos daquele destino apontado pelo vate foram em verdade os mais honestos a se seguirem, quiçá houvesse um atalho, ou uma aventura não maior, mas diferente, uma maneira a sua própria do destemido Florentino chegar até Beatriz. Mas o caso não é esse. Em verdade a vida deveria ser simples antes mesmo de prestarmos forças na tentativa conjurosa de por algum motivo tentarmos simplifica-la. Porque tudo é muito simples, no entanto TUDO por ser muito simples, leva a vigente maré da contemporaneidade a um vasto campo de irreconhecível lados de uma mesma simplicidade. A modernidade é um caro risco, sem opções de variedade. Insinuadora de sentimentos, jamais revela para a mão esquerda de quem é a direita que coage. 
    A Vida Simples se torna complexa porque seus símbolos á um mundo cubico, são á grande maioria da gente que vive aqui, particularmente insustentáveis. Nós confundimos muito das palavras e seus expansivos significados. Entre ser pobre e não ter coisa alguma, há demasiada distinção, forma, motivo, sentido, prazer e coisas varias. Simplicidade tem autonomia, o que torna cada um em seu invólucro distinto um do outro em suas próprias prosperidades.



    As coisas não passam daqui. 

        


    A historia de tua vida jamais será maior do que a da tua espécie. A natureza não me disse exatamente para o que fui feito e nem qual o motivo de ter me colocado aqui. Bem, a natureza não fala, ela apenas se repete, entretanto, há pessoas que realmente a vida sobrecarregam como Sísifo, aquele da pedra, do trabalho sem fim e ausente de significados, a raposa mitológica que negaceava os deuses. Do meu ver, a maioria de nós nos tornamos pessoas sísifinianas, seres vagos, com sonhos e metas que não são nossos, mas que sim no decorrer de nosso desenvolvimento foram nos legado por uma tradição de família, um diploma adquirido, algumas centenas de tijolos e argamassa amontoados. As coisas que penso sobre o que pensam os outros quando em algum instante á mim se comunicam, não passam de ser as coisas que penso de um governo qualquer, da televisão, deste grande rebanho que até as faculdades trafegam tendo todas as certezas de seus claros destinos. Realmente somos muito baixos e nos tornamos assim, assim como fará dos que ainda não nasceram a deusa Época de seus destinos. A Simplicidade, riqueza das riquezas, não nos vem tranquilamente como deveria, porque fazer de tudo muito mais difícil no decorrer dos séculos a nós se tornou muito mais fácil.      

Carl Sagan



    Àqueles interessados, eu aconselharia como livro para se poder passar algumas boas horas nesta vida, "O Mundo Assombrado Por Demônios: a ciência vista como uma vela no escura", para os demais eu continuo indicando a boa e velha Bíblia em quatro atos.








"Se não existe vida fora da terra, então o universo é um enorme desperdício de espaço"

( Carl Sagan / 1934-1996)


O Planeta da Janela


O Planeta visto da Janela, e o contrario. Dizem que a Terra caberia muitas vezes dentro de Júpiter, e que os seus ventos são impetuosos, e seus modos abrasivos, e que suas luas desandam em órbitas. Dizem muitas coisas que daquela janela eu jamais vi ou a menor conta me dei. 


Io, Europa, Ganimedes, Calisto.

O Ermitão





Vista da Serra de São Domingos, lado Noroeste,  e o caminho entre a floresta de eucaliptos, Poços de Caldas.

17 de dezembro de 2011, sábado.