quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Doença que adquirimos na Busca por Preenchimento



    O Século XX, herdou de seus antepassados uma Loucura e a fortaleceu a nível de trevas, a de que você tem de Ser alguma coisa que não se encontra em você. Coisa do mundo, do fora, do amanhã. Legou ao século XXI milhões de corpos humanos com o crescimento desenfreado da população mundial. Corpos como cebolas na analogia do pensador hindu Ramakrishna, que após removermos a sua ultima camada e penetrarmos no involucro, o que descobrimos é um núcleo vazio, ausente de qualquer centro interior. Tudo o que temos sido são camadas, camadas sobre camadas que chamamos de "nosso" jeito, "nossa" personalidade, "nossas" pretensas características próprias. Apodrecemos diariamente na velocidade de algumas horas, diante de qualquer situação que nos contrarie. Buscamos psicopaticamente o amanhã, e sob este pretexto conseguimos justificar toda e qualquer falta nossa pelo hoje.        




    A função matemática que mais dominamos é a da soma. A Filosofia do mais é do domínio de qualquer pessoa do contemporâneo. 


   Nos tornamos pela força da ideia do progresso edições ilimitadas pela vida de nós mesmos. Quando me perguntam "quem eu sou?", digo "minha profissão", "meu namoro", "meu casamento", "minha crença", "minhas marcas preferidas", "meus filhos", "meu trabalho", "meu país", o complexo da cebola, a síndrome das 500 camadas até o involucro que por detrás de tudo só encobre e preza por um grande vazio. 

   Somos o que buscamos, por evidencia do cotidiano. Mas se o que somos é o que buscamos, enquanto o percurso deste caminho ainda me leva, o que realmente de vida existe em mim? O que realmente de mim em mim eu carrego? 


   A Busca que nos ensinam e nos falam e nos deixaram de herança dos séculos passado, a Busca pelo Ser através do Ter, é um processo de Fragmentação de nós mesmos. Só existe o que é, e para vermos isto se faz necessário uma violenta desnecessidade completa. A sociedade que criamos é um acidente, nossos sentidos foram fechados para que o espetáculo que presenciamos pudesse vir a acontecer. A Busca é o fato de nossa perdição, quase tudo quanto buscamos não é para nós, mas para um modelo padronizado de vida num mundo padronizado por designers inteligentes, pessoas que acreditam no controle, na força de se Ter, as grandes dinastias vicejam ainda bem em frente aos nossos próprios olhos.

   O ponto critico então é este: Nós sabemos.
   Mas o Conforto, este Gigante Deus Moderno, é também um exímio pedagogo. O Prazer é o principio de tudo. Trocamos uma riqueza que não chegamos a conhecer bem, pela busca de amanha sermos o que hoje não sabemos somos. Colocamos entre nós e o ato de vivenciar o máximo possível de sonhos obtusos, praticas medíocres, e o dia a dia atravessamos em distrações apequenadoras. A Doença que mais me insulta neste particular é esta, a Busca por Preencher um espaço que eu desconheço. Me empobrecer hoje para ser rico amanhã. E nesta sucessão de futuros, a anestesia dada a capacidade de percebimento cada segundo desce mais fundo pelo franco da agulha até o osso. 


   A Aparência é o essencial. Seus amigos, seus filhos, sua esposa, seu Deus, se tornam apenas as penas de um bandeirismo hasteado do isolamento de alguém que deveras pensava com a cabeça. São também a superfície, estão também na superfície dos acontecimentos desta Vida de Cebola. 

   O maior dos mandamentos, é dito, que é o de amar a Deus acima de todas as coisas. Não. Amai alguma coisa, que seja Vida, acima de todas as coisas. Não vos sujeiteis ao "todos tem, todos são, todos estão". ABRI TUAS MÃOS, DEIXA QUE TE SEJA REVELADO POR TUAS PRÓPRIAS MÃOS, O VAZIO DESTE CENTRO ALIENADO QUE SÓ DEVORA. ABRI AS MÃOS E DEIXA QUE CAIA ESSE RIDÍCULO VAZIO NAS CARAS DESTE PEQUENO NADA DA BUSCA PSICOLÓGICA QUE SÓ TE FAZ FRAGMENTOS. O VIVER É CONTEMPLAÇÃO SEM NOMES. 

   O Desapego é de graça. Eu tomo de algumas pequenas horas em minha solidão, entro e me sento bem dentro de mim. Dali eu escuto o que vejo. Eu sem eu, dali o intrigante, nada faz diferença. De dentro de mim, o "eu" não me vejo, tomo consciência do meu empobrecimento voluntario, das minhas vaidades, quis colocar brincos nas orelhas da Vida e descubro agora que a Vastidão não tem cara. O processo todo então para, desaparece o movimento, Abro minhas Mãos, derrubo o que me ensinaram.

   A Morte é um fenômeno sublime.          

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